seria como dizer-lhe: "tem cancro! anime-se! é o seu aniversário!"
e quê? a felicidade não lhe surge nas veias só porque é um aniversário especial, o último eventualmente. continua a ter cancro... a mulher que esperava ao lado da cama sabia-o. sabia que cuspir palavreado bonito só faria pior. e, no fundo, havia tratamento para aquilo (nesta realidade, há sempre tratamento para aquilo) mas os custos eram demasiado elevados e ela não conseguia suportá-los sozinha - como, aliás, nenhum ser humano sem pés nem cabeça consegue.
nesse dia, havia passado para lá de quatro horas sentada na janela do quarto. o cheiro da doença trazia-lhe o vómito e manter a cabeça de fora permitia-lhe manter-se dentro do quarto sem que, no entanto, a realidade de toda a situação se lhe entranhasse nos poros. não trocaram impressões. tinha quase a certeza de que o canceroso nem lhe havia posto os olhos. pensara em fugir pela mesma janela com a noção de que o doente não lhe notaria a fuga (quantas vezes havia fugido antes...) mas o seu corpo não quis mexer. sabia que não podia fazê-lo. não pela doença nem pela consciência nem pelo peso que os seus pés haviam adquirido ao longo do tempo, era qualquer coisa nos seus cabelos tinha a tendência a aprisioná-la noutros corpos. tentara, na sua juventude, contrariar-se e arrastar o cadáver para fora de outras salas de hospital e acabara sempre imobilizada à saída. ficara-se pelo ficar.
fez-se noite. alguém do andar de cima ordenou que se fechassem as janelas "para evitar o agravamento das doenças pulmonares". arrastou-se da janela e aproximou-se da cama com a locomoção de um monólito milenar. estava vazia. vazia como em sem corpo. do fundo de si, sabia-o uma questão de tempo. olhou os lençóis como se neles tivesse vivido trezentas encarnações e debruçou-se sobre eles. cheiravam a doença, à moléstia e aos restos glandulares de uns quaisquer olhos que podiam ser os seus. ficara ali só para ser abandonada, como quem prepara cuidadosamente um barco cujo destino sabido é o naufrágio.
fora sempre sim. sempre havia de ser.
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